Após 12 anos de
atuação, o Conselho de Segurança
da ONU determinou que a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti
termine no dia 15 de outubro para as tropas brasileiras
Passados
mais de 10 anos de missão, esta começa a ser reavaliada e especialistas indicam
a necessidade de que se criem condições para que o Haiti possa se cuidar
sozinho. A ONU previa a retirada das tropas em 2011, mas por conta do terremoto
que aconteceu no mesmo ano em 12 de janeiro, os planos foram alterados e as
atividades praticamente dobraram.
Em 2004 o Brasil recebeu o convite da ONU para liderar a
Minustah proporcionando para o país uma oportunidade ímpar de se projetar no
cenário internacional e assumir uma posição de destaque no cenário regional. No
período em que as tropas brasileiras se efetivaram no Haiti a situação era
caótica devido à falência total do Estado e à violência das gangues que se
enfrentavam por todo país aterrorizando a população, criando um ambiente
hostil.
Embora já exista uma data pré-definida pelo Conselho de
Segurança da ONU quanto o fim da missão para o Brasil, de acordo com
especialistas a saída do Haiti não será uma tarefa fácil, pois o fim da missão
significa transmitir uma mensagem positiva para o mundo. Gustavo Macedo é
pesquisador em relações internacionais da USP e comenta o assunto: “Desde 2009
já se vem falando do fim da missão, a cada ano cria-se a expectativa, então eu
tenho dúvidas de que a missão vai fechar esse ano, por que todo ano fala-se a
mesma coisa, você consegue decidir quando você entra, mas não consegue decidir
quando você sai, pois cria-se uma série de laços. É extremamente importante
você passar um recado para o resto do mundo, para as empresas, para as
multinacionais, para os conglomerados...”
O fim da missão pode impactar nas questões econômicas do
Haiti. O Brasil gastou mais de R$ 148 milhões com a Minustah e em 2013
ultrapassou R$ 179,69 milhões. No total desde o início da missão, segundo o
Ministério da Defesa que se baseou em dados do Sistema Integrado de
Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) o Brasil investiu quase R$
2,12 bilhões na missão do Haiti, tendo recebido de volta da ONU R$ 742,72
milhões de reais (333,88 milhões de dólares). O tenente coronel Serejo do
Estado-Maior do Exército afirma que: “Atualmente o componente militar da
Minustah vem sendo reduzido e a Polícia Nacional do Haiti (PNH) vem assumindo
gradativamente a função de manter o ambiente seguro e estável para a população
haitiana. Tal fato sinaliza que a missão sofrerá alterações em sua configuração
tornando-se uma missão política com foco na reestruturação das instituições
haitianas com o objetivo de dar suporte ao governo haitiano para que conduza o
país por conta própria”.
A Minustah nasceu em 2004 para estabelecer a segurança e
normalidade institucional do país após sucessivos episódios de turbulência
política e violência, desde então mais de 2.300 militares de 19 países fazem
parte do efetivo. O Brasil é o responsável pelo comando da força, com o dever
de zelar pela segurança do país, mas suas atividades não se limitam apenas a
isso, existe um lado social administrado pelos militares em seus dias de folga.
Foto: Renata Vitório - Sargento Santos, Corone Valdir, Sargente Filinto concedendo entrevista para o Jornal Foca nos fatos
Durante
esses doze anos de missão o comportamento das tropas criou uma relação de
amizade entre os dois povos, comenta o tenente coronel Serejo: “A relação entre
os dois países é excepcional e o Haiti tem profundo respeito e admiração pelo
Brasil mesmo depois de quase uma década de missão de paz”. O Haiti é o país
mais pobre do continente americano e ainda de acordo com ele há muito que ser
feito, principalmente após o estrondoso terremoto, mas o suporte dado à ajuda
humanitária foi intenso.
Foram
implementados vários cursos profissionalizantes nas áreas de construção civil e
de recursos humanos. Houve intercâmbio entre os dois países e vários haitianos
fizeram curso universitário no Brasil e voltaram ao seu país para exercerem a
profissão. Os capacetes azuis são protagonistas de uma série de histórias
construídas pela comunidade haitiana, para eles a maior satisfação dos
militares é poder ver a ilha caminhar com as próprias pernas.
Dado
o fim da missão, os militares Coronel Valdir e Sargento Filinto do Comando
Militar do Sudeste resumem todo o sentimento em apenas duas palavras: “Missão
Cumprida.” Eles estiveram no Haiti durante a missão e puderam acompanhar e
participar efetivamente das atividades. Jameson é haitiano e reside no Brasil
em busca de novas oportunidades, ele deixa claro a falta que irá fazer se as
tropas deixarem seu país: “Para mim a verdade se eles forem embora, irão fazer
muita falta. Eles estão ajudando muito, dão muita ajuda.”
O tenente Serejo afirma que “quando os militares
brasileiros desembarcaram naquele país caribenho Kofi Annan, Secretário Geral
das Nações Unidas na época, chegou a comentar que a missão seria árdua, com
data para começar, mas sem data para acabar”. Naturalmente não foi uma tarefa
fácil para os militares que por diversas vezes se depararam com a morte e
viveram situações de extrema pobreza, mas a ajuda humanitária para as tropas
brasileiras vai além das atividades impostas pela Minustah, e um trabalho
social é desenvolvido pelos militares nos horários de folga em orfanatos
agregando sentimento de carinho e amor pelo próximo independente de crença ou
religião.
A
Minustah é considerada pelo exército brasileiro umas das missões mais bem
sucedidas da história, e a maior preocupação do Brasil é que o Haiti seja capaz
de seguir em frente sem a intervenção de terceiros. Cada vez mais melhorias já
podem ser vistas, como por exemplo, a volta de haitianos que deixaram o país
após o terremoto, mas é importante ressaltar que o Haiti é o país mais pobre do
continente americano e ainda há muito o que ser feito para sua total
recuperação.
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