quinta-feira, 19 de maio de 2016

Missão brasileira no Haiti termina esse ano


Após 12 anos de atuação, o Conselho de Segurança da ONU determinou que a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti termine no dia 15 de outubro para as tropas brasileiras



Passados mais de 10 anos de missão, esta começa a ser reavaliada e especialistas indicam a necessidade de que se criem condições para que o Haiti possa se cuidar sozinho. A ONU previa a retirada das tropas em 2011, mas por conta do terremoto que aconteceu no mesmo ano em 12 de janeiro, os planos foram alterados e as atividades praticamente dobraram.

Em 2004 o Brasil recebeu o convite da ONU para liderar a Minustah proporcionando para o país uma oportunidade ímpar de se projetar no cenário internacional e assumir uma posição de destaque no cenário regional. No período em que as tropas brasileiras se efetivaram no Haiti a situação era caótica devido à falência total do Estado e à violência das gangues que se enfrentavam por todo país aterrorizando a população, criando um ambiente hostil.

Embora já exista uma data pré-definida pelo Conselho de Segurança da ONU quanto o fim da missão para o Brasil, de acordo com especialistas a saída do Haiti não será uma tarefa fácil, pois o fim da missão significa transmitir uma mensagem positiva para o mundo. Gustavo Macedo é pesquisador em relações internacionais da USP e comenta o assunto: “Desde 2009 já se vem falando do fim da missão, a cada ano cria-se a expectativa, então eu tenho dúvidas de que a missão vai fechar esse ano, por que todo ano fala-se a mesma coisa, você consegue decidir quando você entra, mas não consegue decidir quando você sai, pois cria-se uma série de laços. É extremamente importante você passar um recado para o resto do mundo, para as empresas, para as multinacionais, para os conglomerados...” 

O fim da missão pode impactar nas questões econômicas do Haiti. O Brasil gastou mais de R$ 148 milhões com a Minustah e em 2013 ultrapassou R$ 179,69 milhões. No total desde o início da missão, segundo o Ministério da Defesa que se baseou em dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) o Brasil investiu quase R$ 2,12 bilhões na missão do Haiti, tendo recebido de volta da ONU R$ 742,72 milhões de reais (333,88 milhões de dólares). O tenente coronel Serejo do Estado-Maior do Exército afirma que: “Atualmente o componente militar da Minustah vem sendo reduzido e a Polícia Nacional do Haiti (PNH) vem assumindo gradativamente a função de manter o ambiente seguro e estável para a população haitiana. Tal fato sinaliza que a missão sofrerá alterações em sua configuração tornando-se uma missão política com foco na reestruturação das instituições haitianas com o objetivo de dar suporte ao governo haitiano para que conduza o país por conta própria”.


A Minustah nasceu em 2004 para estabelecer a segurança e normalidade institucional do país após sucessivos episódios de turbulência política e violência, desde então mais de 2.300 militares de 19 países fazem parte do efetivo. O Brasil é o responsável pelo comando da força, com o dever de zelar pela segurança do país, mas suas atividades não se limitam apenas a isso, existe um lado social administrado pelos militares em seus dias de folga.


Foto: Renata Vitório - Sargento Santos, Corone Valdir, Sargente Filinto concedendo entrevista para o Jornal Foca nos fatos

Durante esses doze anos de missão o comportamento das tropas criou uma relação de amizade entre os dois povos, comenta o tenente coronel Serejo: “A relação entre os dois países é excepcional e o Haiti tem profundo respeito e admiração pelo Brasil mesmo depois de quase uma década de missão de paz”. O Haiti é o país mais pobre do continente americano e ainda de acordo com ele há muito que ser feito, principalmente após o estrondoso terremoto, mas o suporte dado à ajuda humanitária foi intenso.

Foram implementados vários cursos profissionalizantes nas áreas de construção civil e de recursos humanos. Houve intercâmbio entre os dois países e vários haitianos fizeram curso universitário no Brasil e voltaram ao seu país para exercerem a profissão. Os capacetes azuis são protagonistas de uma série de histórias construídas pela comunidade haitiana, para eles a maior satisfação dos militares é poder ver a ilha caminhar com as próprias pernas.

Dado o fim da missão, os militares Coronel Valdir e Sargento Filinto do Comando Militar do Sudeste resumem todo o sentimento em apenas duas palavras: “Missão Cumprida.” Eles estiveram no Haiti durante a missão e puderam acompanhar e participar efetivamente das atividades. Jameson é haitiano e reside no Brasil em busca de novas oportunidades, ele deixa claro a falta que irá fazer se as tropas deixarem seu país: “Para mim a verdade se eles forem embora, irão fazer muita falta. Eles estão ajudando muito, dão muita ajuda.”

O tenente Serejo afirma que “quando os militares brasileiros desembarcaram naquele país caribenho Kofi Annan, Secretário Geral das Nações Unidas na época, chegou a comentar que a missão seria árdua, com data para começar, mas sem data para acabar”. Naturalmente não foi uma tarefa fácil para os militares que por diversas vezes se depararam com a morte e viveram situações de extrema pobreza, mas a ajuda humanitária para as tropas brasileiras vai além das atividades impostas pela Minustah, e um trabalho social é desenvolvido pelos militares nos horários de folga em orfanatos agregando sentimento de carinho e amor pelo próximo independente de crença ou religião. 

A Minustah é considerada pelo exército brasileiro umas das missões mais bem sucedidas da história, e a maior preocupação do Brasil é que o Haiti seja capaz de seguir em frente sem a intervenção de terceiros. Cada vez mais melhorias já podem ser vistas, como por exemplo, a volta de haitianos que deixaram o país após o terremoto, mas é importante ressaltar que o Haiti é o país mais pobre do continente americano e ainda há muito o que ser feito para sua total recuperação.


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